Página 4 de Curtas e Mínimas, por Ione Mattos

Caminhava comigo pelas ruas, de mãos dadas. As casas tinham cercas de fícus, aquela planta que aglomerava lacerdinhas, insetos minúsculos que ao cair nos olhos causavam muita ardência. Ele apanhava lacerdinhas entre os dedos e esmagava-os.
─ Assim como nós. Nada além de pó – dizia.
Não ia à igreja, não falava de Deus e não rezava novenas. Em dias de procissão, passava trotes para os vizinhos, imitando a voz do padre.
─ Aqui é o padrre do igrreja dos Sagrrados Corrações. Porr favorr, acendam os luzes e ponham um pano brranco nas janelas, às 15 horras. O prrocissao vai passarr.
Ríamos às gargalhadas: os vizinhos correndo, a acender as luzes, lençóis balançando nas janelas.
Lembro: era um homem de fé. Dessa fé que nada solicita. Tinha fé em cada um de nós, e de nós esperava nada. E dizia que, se pudesse, seria fiscal da natureza – um só apreciar tanta beleza. Na natureza ele tinha fé.
Ensinou-me que fé e amor são sentimentos gratuitos, e que as gratuidades da vida são enormes riquezas. Morreu pobre, mas deixou fortuna.